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23 março 2012

 Encomenda pequena? Chame um “bikeboy”

Fonte: Correio Popular 23/03/2012

Entregas feitas com bicicleta substituem até as motos no Centro

22/03/2012 - 23h14 . Atualizada em 23/03/2012 - 06h47
Adriana Leite
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Adeilton Almeida (esq.) começou a oferecer serviço de entregas de documentos e produtos de bicicletas pelo centro de Campinas: “Vi que havia espaço para este tipo de serviço”
(Foto: Carlos Sousa Ramos/AAN)
Empresas e pessoas físicas usam cada dia mais os serviços de entregas rápidas para resolver problemas cotidianos, como o transporte de documento e o pagamento de contas em agências bancárias. O crescimento do setor é de 50% ao ano nos grandes centros.
E se antes as motos dominavam totalmente o mercado, hoje elas estão ganhando uma concorrência mais lenta, mas mais simpática: os “bikeboys”, que começam a rodar pelas ruas levando produtos e encomendas de pequeno porte em bicicletas.
Campinas ganhou recentemente a primeira empresa especializada na prestação do serviço. De pedalada em pedalada, os ciclistas entregadores avançam em um mercado ainda incipiente no País.
Estabelecimentos comerciais também apostam nas bicicletas para atender os consumidores. A estratégia resgata um hábito que já foi muito comum no comércio. Antes dos carros e motos invadirem as ruas, elas eram usadas para levar pequenas compras, um corte de tecido ou verduras frescas.
As entregas com as bicicletas se concentram na região central. Ruas congestionadas, falta de lugar para deixar o carro e estacionamento caro são fatores que ampliam a vantagem das bicicletas sobre outros veículos. Ela pode ficar encostada em diversos lugares sem nenhum custo - basta colocar corrente e cadeado para não ter a desagradável surpresa de ser vítima de furto - e prestar atenção no trânsito para o negócio ter grandes chances de dar certo.
“Antes de começar a empresa, fiz um treinamento com os ciclistas para que entendessem o trânsito na região central. As bicicletas são usadas para o transporte de documentos, para a execução de serviços em cartórios ou bancos, ou na entrega de pequenas encomendas”, afirmou o proprietário da Bike Entregas, Adeilton Soares de Almeida, que abriu a empresa há quatro meses. “Vi que em Campinas havia espaço para esse tipo de serviço”.
O empreendedor comentou que começou o negócio com apenas R$ 10 mil e três bicicletas. “A empresa também oferece a entrega com motos, mas elas servem para serviços fora da área central. No Centro, usamos apenas bicicletas. A medida reduz a emissão de poluentes, melhora o trânsito e dá a alternativa de um serviço mais barato para o cliente', disse o empresário. Ele ressaltou que a demanda do setor está em alta e que o uso das bicicletas vai ganhar espaço no mercado como uma alternativa econômica e sustentável.
Com mais de 20 anos de experiência no ramo de motofrete, Almeida contou que foi ele mesmo o primeiro ciclista entregador (como ele apelidou os profissionais que trabalham nas entregas). “Trabalhei durante muitos anos como motoboy em Sorocaba. Acabei me mudando para Campinas e fui trabalhar na mesma área. Mas tive um problema de saúde e precisei emagrecer. Nessa época, decidi usar a bicicleta para fazer exercício e aproveitei para começar a fazer entregas. Fiquei três anos trabalhando sozinho e, como vi que o negócio podia evoluir, no ano passado resolvi abrir uma empresa”, disse.
Com custo de manutenção muito menor do que o das motos, as entregas com as bicicletas saem bem mais baratas que as feitas com motos. “O primeiro serviço com as bicicletas sai por R$ 10,00. E, se no mesmo pedido o cliente incluir mais entregas, para cada uma delas é acrescido R$ 5,00. No caso da moto, o valor inicial é de R$ 15,00 e as entregas adicionais saem por R$ 8,00 cada uma, apontou. Segundo ele, são feitas em média, seis entregas por dia com as bicicletas.

Vantagens
Há um ano, a Orly, uma das padarias mais tradicionais de Campinas, instalada na região central, incluiu as bicicletas como meio de transporte para levar produtos aos consumidores.
O movimento é tão grande que as saídas chegam a 20 por dia. “Temos dois ciclistas que fazem os serviços de entrega no Centro. Eles são responsáveis pelo transporte de pequenos pedidos. O meio é mais econômico e mais rápido, além de contribuir para reduzir a poluição e o trânsito no Centro”, disse a auxiliar das áreas administrativa e financeira da empresa, Edna Rita de Souza.
Ela calculou que 80% das entregas na região central são feitas por meio das pedaladas. “Temos também carros que são usados para grandes volumes”, disse. Edna contou que as bicicletas carregam pães, leite, café, docinhos, sucos e outros produtos vendidos na padaria. “Não há custo para as entregas na região central”, disse.
Segmento de entrega rápida cresce, mas enfrenta problemas
O mercado de entregas rápidas cresce no esteio da vida agitada dos grandes centros urbanos e da necessidade de tudo ser “para ontem”. A maioria dos clientes é de empresas, mas há muitas pessoas físicas que também usam os entregadores.
O presidente do Sindicato das Empresas de Distribuição das Entregas Rápidas do Estado de São Paulo (Sederesp), Marcos Marçal Ribeiro, afirmou que o mercado assiste a um crescimento de 50% ao ano.
Apesar do número robusto, o cenário atual não é nenhum mar de rosas. O problema não é a falta de procura pelo serviço, mas a escassez de mão de obra. Com outros setores da economia aquecidos, como a construção civil, muitos motociclistas preferem mudar de profissão.
Ribeiro disse que o piso salarial pago pelo segmento de motofrete é baixo (R$ 835,00) frente a outros setores. Avaliado o risco que os profissionais correm todos os dias, a remuneração está muito aquém da responsabilidade do trânsito que enfrentam.
“A direção do sindicato tenta sensibilizar os proprietários das empresas para que as condições salariais e de trabalho sejam melhoradas. A lei que disciplinou a atividade das empresas de motofrete responsabiliza solidariamente os contratantes dos serviços se o trabalhador tiver problemas, como acidentes ou o dono da empresa de entregas rápidas quebrar. Isso ajudou a formalizar empresas e trabalhadores. Mas ainda há muita irregularidade. É preciso que os órgãos fiscalizem o mercado com mais rigor”, disse.
Ele acentuou que o sindicato quer o crescimento sustentável do setor, com respaldo na legislação e com profissionais qualificados. “A partir de agosto, os motociclistas terão que ter um curso específico para atuar na área de entregas rápidas”, disse.
Ribeiro afirmou que há um déficit de 3 mil trabalhadores no Estado de São Paulo. Para ele, essa falta de mão de obra vai acabar por limitar a ampliação dos negócios.
“Já existem prestadoras de serviços de motofrete que perdem pedidos por falta de empregados para atender a demanda”, comentou.
O presidente do Sederesp pontuou que a utilização das bicicletas pelas empresas de motofretes vem ganhando espaço no setor, mas lembrou ainda há muitas limitações para esta opção. “No Brasil, a bicicleta não é vista como um meio de transporte. Ela é considerada um equipamento de lazer. E as ruas não estão preparadas para recebê-las. Nas grandes cidades não existem ciclovias e nem ciclofaixas. E os motoristas não respeitam mesmo, tanto que hoje em dia estamos vendo um crescimento no número de mortes de ciclistas. É necessário disciplinar o trânsito”, comentou.
O proprietário da Real Time, Robson Martins Souza, afirmou que há uma grande demanda pelo serviço realizado pelos motoboys. “A minha empresa trabalha basicamente com a entrega de documentos e a realização de serviços do dia a dia”, disse. O empresário também observou que está complicado encontrar motoristas que queiram atuar como motoboys.
O custo do serviço prestado pela empresa de Souza é de R$ 15,00. Em áreas mais distantes, o valor sobe para R$ 20,00, e se a viagem for para bairros periféricos, o preço chega a R$ 25,00.
O empreendedor Mário Luiz de Paula está no mercado campineiro há 9 anos. Para ele, o aquecimento da economia e o grande número de empresas em Campinas impulsionam o segmento de motofretes. “Em média, faço 30 entregas por dia”, disse.